Por Marta Furtado
Acreditando que entre os objetivos do Fanatics for Phonetics está o fato de promover discussões sobre Fonética e Fonologia, convidamos o professor Dr. Dermeval da Hora para uma entrevista. Nessa oportunidade, perguntamos sobre a trajetória do professor no campo da linguística, considerando a importância de suas pesquisas e suas opiniões sobre os estudos fonéticos e fonológicos no Brasil.
O professor Dermeval da Hora é doutor em Linguística Aplicada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1990). Realizou estágio pós-doutoral na Universidade Livre de Amsterdam. É professor da Universidade Federal da Paraíba e foi o principal articulador da criação do Programa de Pós-Graduação em Lingüística (PROLING), tendo sido o seu primeiro coordenador.Tem experiência na área de Lingüística, com ênfase em Língua Portuguesa, atuando principalmente nas áreas de Fonologia, Sociolinguística Variacionista e Aquisição da Linguagem. É bolsista de Produtividade do CNPq, foi presidente da Associação Brasileira de Lingüística (ABRALIN) e é delegado da Associação de Lingüística e Filologia da América Latina (ALFAL) no Brasil. Nessa Associação, coordena o Projeto 19 - Fonologia: teoria e análise. Atualmente realiza Estágio Sênior na Vrije Universiteit - Amsterdam, desenvolvendo projeto relativo a estudo do estilo associado à variação.
Quando você decidiu voltar suas pesquisas para as áreas de Fonologia, Sociolinguística Variacionista e Aquisição da Linguagem?
Minha história com a Fonologia e também com a Sociolinguística começou em 1986, quando fui fazer meu Doutorado na PUCRS. Conhecia pouco de Sociolinguística Variacionista e cheguei acreditando, como vejo os alunos que iniciam hoje, que podia escolher um tema sem delimitá-lo o suficiente, a fim de permitir uma análise probabilística. A partir dos cursos que fiz com a Profa. Leci Barbisan, lendo Labov, é que comecei a perceber o que tinha que fazer. A Leci era uma grande admiradora de Labov e conseguiu contagiar-me. Associado a isso, surgiu a oportunidade de fazer uma disciplina com a Profa. Leda Bisol, que sempre trabalhou com Fonologia. Aí foi a gota d’água. Seu jeito de ensinar, de passar o conteúdo, tudo contribuiu para interessar-me. Atrelado ao meu interesse pela Sociolinguística acrescentei a Fonologia. E aí é o que faço até hoje.
Quais foram as principais pesquisas que você já desenvolveu nessas áreas?
Meu maior trabalho e o que considero mais significativo foi o Projeto Variação Linguística no Estado da Paraíba – VALPB. Iniciado em 1993, esse Projeto rendeu grandes frutos. Muitas dissertações, teses, artigos, apresentações em eventos são resultantes dessa iniciativa. Inúmeros alunos passaram pelo VALPB. Hoje, muitos deles são colegas, atuando em diferentes universidades brasileiras. São pesquisadores como eu. E, muitos deles, voltados para Sociolinguística e Fonologia. O trabalho, assim, não foi em vão.
Quais foram os trabalhos mais significativos na área de Fonologia no Brasil?
Fiz inúmeros trabalhos de Fonologia. Utilizando os dados do VALPB, pesquisamos vários processos. Gosto dos trabalhos sobre a coda no Português. A partir deles, e comparando os resultados com outros do Brasil, podemos chegar a conclusões bem interessantes. Também temos investido nas vogais. Até participamos de um Projeto nacional sobre elas. Enfim, temos muita coisa já publicada nessa área, todas com um pé na variação.
Na Universidade Estadual da Paraíba, para o curso de Letras com habilitação em Língua Inglesa, a Fonética é uma disciplina independente. Por que isso não acontece com a habilitação em Língua Vernácula e qual é a sua opinião sobre isso?
Quando cheguei na UFPB em 1992, tínhamos uma disciplina de Linguística II. Nela, inseríamos o conteúdo de Fonética e Fonologia. Quando começamos a trabalhar a reestruturação do Curso de Letras Vernáculas, inserimos a disciplina Fonologia do Português. Ela já está sendo ministrada. Como tenho estado afastado de minhas atividades na graduação por algum tempo, desconheço como está sendo conduzido o curso. Difícil trabalhar com Fonologia sem trabalhar com Fonética. Acredito que as duas estejam como foco de atenção na disciplina. Defendo, entretanto, que, para a licenciatura, a Fonologia tem informações mais interessantes. É interessante trabalhar o sistema fonológico e ver como ele se reflete no uso. De posse desse conhecimento podemos atuar em questões relacionadas às habilidades ler e escrever. É inegável como essas coisas estão associadas.
Qual é a análise que você faz sobre as pesquisas em Fonética e Fonologia no Brasil? Há muitos ou poucos pesquisadores atuando nessas áreas? Qual é o foco das pesquisas em andamento?
Se considerarmos as disciplinas que constituem o núcleo “hard” da Linguística, acho que elas todas precisam ter mais adeptos. A Fonologia é uma que ainda é pouco estudada. Há grupos fortes em algumas instituições, mas, na maior parte do Brasil, não temos representantes. O mesmo acontece com a Fonética. O grupo do Rio Grande do Sul tem desenvolvido pesquisas com base de análise na Teoria da Otimalidade. Outras tendências existem no Brasil, mas são bem incipientes. Aqui na UFPB, seguimos a proposta do grupo do Rio Grande do Sul, mas são poucos os colegas que trabalham nessa perspectiva. Sempre me pergunto por que a resistência aos aspectos estruturais da língua. A situação da morfologia, por exemplo, chega a ser pior do que a da Fonologia. Se tentar levantar quantas pessoas trabalham com Morfologia no Brasil, com certeza poderá contar com os dedos das mãos. Leda Bisol foi uma grande disseminadora da Fonologia no Brasil, a ela devemos muito do que está sendo feito.
Os estudos em Fonologia estão intrinsecamente ligados ao fenômeno da variação linguística. Como você avalia o espaço da variação linguística na sala de aula e no livro didático de ensino fundamental?
Tenho participado de vários eventos falando sobre variação. Acho ótimo sempre que tenho essa oportunidade. E sempre que a tenho procuro associar a variação à Fonologia, mostrando como esse conhecimento pode contribuir para que entendamos o que acontece com nossos alunos em todos os níveis de ensino. Infelizmente, a maioria dos professores que atua no nível fundamental desconhece essa relação e aí fica difícil lidar com certas questões que seriam facilmente resolvidas se a conhecesse. Alguns livros didáticos tratam essa questão de forma muito superficial. Com isso, os alunos acabam sendo prejudicados. Quando trabalho com Fonologia com professores do ensino fundamental, e procuro associá-la a aspectos da leitura e da escrita, é impressionante como cresce o interesse das pessoas. Parece que estão vendo aquilo pela primeira vez. É gratificante ajudar. O problema é a continuidade, que nem sempre acontece.
Considerando a possibilidade de falar aos estudantes de Letras, o que você pode dizer aos alunos que desejam aprofundar seus estudos em Fonética e Fonologia?
Tenho feito sempre isso. Processos aliados a questões de Fonética e Fonológica são os mais fáceis de serem percebidos. Com isso, somos instigados a buscar soluções. Sempre enfatizo a beleza do que é perceber como as coisas funcionam na língua. Nada que dizemos é por acaso, e não o dizemos como queremos. Há coerência em tudo. Existe um todo articulado, em que unidades menores se unem para constituir unidades maiores. Daí a importância de se conhecer algo sobre os sons e seus sistemas. Não consigo entender como algumas pessoas acham que conseguem fazer análise de discurso, de texto sem conhecer a estrutura básica da língua. Hoje estou começando uma nova fase de pesquisa. Estou estudando o estilo associado à variação, ou a variação associada ao estilo. Ao observar as diferenças de estilo, percebo que tudo está atrelado. O discurso faz parte do estilo, mas ele só é plenamente compreendido se tivermos conhecimento do que subjaz. Para os alunos que iniciam, sempre coloco a necessidade de termos uma compreensão ampla dos estudos linguísticos. Só a partir dela é que poderemos definir o que exatamente queremos. Trabalhar os sons, procurando entendê-los em sua produção e também na sua representação mental é algo desafiador, mas que é gratificante para o investigador.

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